quarta-feira, 19 de maio de 2010

The rain in the window.


Desde que ele se fora, ela nunca mais havia ido à janela contemplar as gotas de chuva que batiam e respingavam no telhado. Nunca mais contemplara também as nuvens, agora já escuras, cheias de gotículas minúsculas; lágrimas talvez. Elas escorriam pelo vidro, se arrastavam pela calha prensa à parede, provocavam pequenos ruídos, batuques de chuva, dizia ela. Mas não se dava conta, ou apenas fingia que não notava a chuva a cair lá fora.
O céu pra um azul vinil, o mesmo que enrubesceu sua tarde de Setembro. Ele partira, partira na chuva. Deixou-a sozinha sem desculpas, deixou-lhe apenas com tormentos, sem sentimentos.
Desde então nunca mais fora a janela.
Não queria imaginar como seria, olhar através dela e nem ao menos ver a penumbra do tal rapaz. O rapaz que lhe surgia somente em sonhos para despertar a tal paixão já adormecida. Nem sequer recordava-se de como era seu tom dos olhos. Já fazia tanto tempo...
Mas nem assim ela ia à janela ver a chuva cair regando a população.
A chuva é a vida, assim pensava ela, ela rega a todos que têm sede, sede de vida. Olhava a costura de uma velha camisa de manga rasgada e depois retomava seus pensamentos: Eis que não quero a minha. Lá fora, quando a chuva cai, nada é meu, nada me possui. Não o quero aqui, pois quero que vá com malditas lembranças. Não quero pensar em como era bom estarmos contentes tomando um banho de chuva. O guarda-chuva disposto na mão, mas em nós o simples desejo de sermos regados de vida, regados pelo amor que nos continha. E então a chuva um dia recolheu tudo o que um dia nos trouxe. Levou você com ela deixando-me só. Eis que agora não vou à janela, olhar a chuva rir de mim, regando todos os outros que passam felizes, os regando com seu amor do mesmo modo que um dia também regou a mim.

A chuva caía, mas logo em seguida vinha os raios de sol com sua doçura confortá-la com sua piedade.
Talvez um dia, quem sabe... os raios não houvessem de ensiná-la que após toda tempestade, lá fora mais tarde surge um sol esplendoroso. Mas somente nos damos conta de sua graça quando vislumbramos coisas más.
A vida é assim. É preciso um pouco de gelo, gelado... o frio; para o calor vir e acalentar por inteiro a alma febril.


• Pauta para Bloínquês
17ª edição visual.


5 comentários:

  1. "É preciso um pouco de gelo, gelado... o frio; para o calor vir e acalentar por inteiro a alma febril."

    Lindo!
    Bjs!

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  2. "É preciso um pouco de gelo, gelado... o frio; para o calor vir e acalentar por inteiro a alma febril."
    Que lindo, de verdade, e acho que não deve se render, teu texto está muito bom, passa sentimento, é sensível. Lindo mesmo, e terminou com chave de ouro viu!

    Beijos, Alessandra.

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  3. a chuva sempre me lembra um pouco melancolia e frio. e também me lembra amor.
    a última frase foi a melhor *-*

    se cuida :*

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  4. Hum...
    Deu um aperto no meu peito...
    Belo texto...

    Bjs

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